
Sebastião Simão Filho tinha apenas 17 anos quando se apaixonou pela poesia de Fernando Pessoa. Nesta terça-feira (20/09), o ator paraibano fez uma releitura de seu poema Ode Marítim, de Álvaro de Campos (heterônimo do escritor português), na peça Odemar, da Companhia Máscaras de Teatro, monólogo que abriu as apresentações cênicas do Festival Pernambuco Nação Cultural – Sertão do São Francisco.
Numa estrutura cenográfica simulando uma embarcação marítima, o espetáculo, dirigido pelo próprio ator, fala de um universo fantástico construído através de delírios de seu protagonista que, diante de barcos e navios num porto deserto, fantasia sobre as coisas do mar, descrevendo-o apaixonadamente, misturando com temas como amor, loucura, saudade e solidão.
Criada há cerca de dez anos em Petrolina, a Cia. Máscaras cresceu tanto que foi para Recife, sendo essa sua primeira apresentação na cidade desde a mudança. “Eu tentei montar esse texto aqui há mais de 20 anos, mas numa concepção totalmente diferente. Ensaiamos em Recife durante um ano e meio até a nossa primeira apresentação, há quase dois anos. Com o tempo, fomos mudando pouco a pouco a sua estrutura. Também inserimos a sonoplastia ao vivo, que era anteriormente gravada. São apenas pequenos detalhes que vamos melhorando, pois a peça já está praticamente sedimentada”, comentou o ator, que recebe ajuda na sonoplastia de dois atores da Companhia, Diego Lucena e Luiz Manuel.
Mais do que o próprio texto em si, o trabalho de corpo chama muito a atenção durante a peça. Adepto da antropologia teatral, o teatro de Sebastião Simão Filho é totalmente imerso no movimento corporal do ator e de seu completo entrosamento com o espaço. A cenografia é funcional, e todos os elementos presentes participam das ações.
“Nós não partimos da ideia para a realização. A partir da prática que surgem as ideias. É um teatro experimental. Se você perceber, eu caminho pouco durante o espetáculo, mas me mexo muito. É uma das coisas da antropologia teatral, do teatro físico, o mínimo de movimentos, mas uma completa interação com o espaço. Comparamos muito com a dança. A ideia é dançar no palco, e não caminhar”, completa.
Depois da apresentação, Sebastião reservou um momento para conversar com a plateia presente, onde foi discutida a linguagem do texto e o papel do corpo quase como um elemento decisivo do espetáculo. Alguns, inclusive, já conheciam o seu trabalho, como é o caso do ator petrolinense Daniel Ribeiro, de 34 anos.
“Eu já conhecia Sebastião há muito tempo, desde quando eu tinha 12 anos ele já fazia teatro por aqui. Nunca atuei em suas peças, mas já tinha feito suas oficinas. Eu vejo o trabalho dele diferente de muitos outros que eu conheço. Gostei muito de Odemar, não conhecia o texto, mas a peça cresceu de uma maneira que impactou bastante”, disse.
Participante do grupo Teatro Popular de Arte, Daniel aponta um crescimento cada vez maior do teatro petrolinense, com o surgimento de muitos grupos como o Pé no Palco, Trupe Errante e a Companhia Biruta.
“Também estão sendo realizadas muitas oficinas de artes cênicas, que despertam o interesse de quem não conhece e aperfeiçoam as técnicas teatrais de quem já atua. Temos um núcleo de teatro no Sesc, onde realizamos pesquisa, tanto de atuação quanto de direção. Também lemos textos e fazemos inúmeros trabalhos. O que eu observo são os grupos teatrais daqui buscando realmente o que tem de melhor”, finaliza.
Fonte: Fundarpe
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